
Por José Nivaldo Junior, Hylda Cavalcanti e Severino Lopes.
A notícia tem potencial para merecer edições extraordinárias dos principais noticiários da televisão e frequentar as capas dos grandes jornais, sites e blogs. No entanto, foi recebida com um silêncio ensurdecedor. Além de nós, aqui, em O Poder, uns poucos sites se deram ao trabalho de repercutir que setores estratégicos do ‘Trumpismo’ cogitam retomar as antigas bases militares norte-americanas da Segunda Guerra no Nordeste do Brasil. Assunto incômodo para todo mundo, ao que parece. Melhor jogar para debaixo do tapete. E tratar da Groelândia, cujos antigos esquimós, atuais inuítes, que na verdade se autodenominam Kalaallit, estão, no momento, seduzidos pela perspectiva de trocar o passaporte da Noruega pelo Green Card e mais um bônus individual de US$ 100 mil. Ou, por outro lado, resta ao espectador tupiniquim acompanhar a novela noticiosa da Venezuela, onde há apenas uma semana que parece distante uma década, os norte-americanos depuseram um governo ilegítimo e indócil, substituído por outro tão ilegítimo quanto, porém rapidamente domesticado pelo assustador ‘Tio Sam’. Além do Brasil, Canadá e México estão na mira do novíssimo velho imperialismo de Donald Trump.
O professor e dirigente político Natanael Sarmento, integrante da direção nacional do partido de esquerda radical Unidade Popular – UP, foi o único intelectual brasileiro, até agora, a deixar sua zona de conforto e abordar em artigo (que publicamos ontem) a incômoda questão das pretensões americanas sobre o Nordeste brasileiro. O Poder conversou com ele.

O Poder – Desde maio Trump cogita ocupar bases em Natal, Noronha e retomar uma base militar nas imediações do Recife. O tema foi levantado pelo site ‘DefesaNet’, pouco conhecido do grande público. O senhor considera uma fonte confiável?
Natanael Sarmento – Sim, sem dúvida. Basta consultar o Dr Google. O ‘DefesaNet’ é considerado uma fonte respeitável e especializada em notícias e análises sobre defesa, estratégia, segurança e indústria bélica no Brasil. Existe desde 1999/2000. É referido por outras fontes de notícias, como a Sputnik e a seção de notícias do Superior Tribunal Militar (STM). É uma das maiores referências sobre indústria bélica, defesa, estratégia, inteligência e segurança da América Latina. Um registro: o ‘DefesaNet’ trata, desde maio, das pretensões norte-americanas sobre Natal e Noronha. O Recife foi levantado por vocês, de O Poder, segundo a matéria junto a fontes diplomáticas dos Estados Unidos.
O Poder – Por nós, na verdade. E mais: temos uma notícia impactante, ainda em fase de apuração. Anote. (Risos).
Natanael – Devidamente anotado. Eu acho que já sei o que é, mas por enquanto vou ficar calado. (Risos).

O Poder – Bem, voltando ao plano. Como seria esse possível desembarque de tropas americanas por aqui?
Natanael – Não é segredo para ninguém que os Estados Unidos possuem uma vasta rede global, com cerca de 750 a 800 bases militares espalhadas por aproximadamente 80 países, inclusive países democráticos. O número varia de acordo com as fontes, já que algumas instalações são secretas ou mudam constantemente de local. Essa rede é a maior do mundo, com muitas bases herdadas da Segunda Guerra Mundial, concentrando-se em locais como Alemanha, Japão, Itália, e uma forte presença no Oriente Médio e Coreia do Sul. Portanto, diante das atuais circunstâncias da nova Guerra Fria mundial, e da própria situação instável da América Latina, aos olhos do ‘Trumpismo’, não é nada espantoso que a América do Sul esteja nos planos estratégicos dos militares e diplomatas ‘Ianques’.

O Poder – Como seria essa ocupação? Pela força?
Natanael – Força só em último caso. Seria por meio de negociações políticas. Os estrategistas do presidente Trump, olhando o mapa do Atlântico Sul e estudando as operações militares da segunda Guerra Mundial, concluíram o óbvio: Natal, Noronha e o Recife são pontos absolutamente indispensáveis para o controle do continente sul americano, da costa oeste e norte da África Ocidental e da própria Europa. Especialmente Portugal, Espanha e toda a área mediterrânea.
Informações dão conta que diplomatas vinculados a setores do Partido Republicano, próximos ao núcleo político do presidente Trump, vêm articulando informalmente com interlocutores brasileiros o uso irrestrito do Aeroporto de Fernando de Noronha e da Base Aérea de Natal, no RN. Também a reativação de base militar nas imediações do Recife, substituindo a antiga base do Ibura Field, como era chamada. Hoje, inviabilizada pela dimensão que tomou o Aeroporto dos Guararapes.

O Poder – Como esse segredo de polichinelo seria operacionalizado?
Natanael – Segundo o portal, o argumento apresentado remete ao conceito de “direito histórico de retorno operacional”, baseado em investimentos realizados pelos EUA durante a II Guerra Mundial e no período da Guerra Fria. A retórica segue a mesma linha adotada recentemente por aliados de Trump ao defenderem que os EUA deveriam reivindicar maior controle técnico-operacional sobre o Canal do Panamá. No caso brasileiro, os objetivos citados são considerações pragmáticas, do alto valor geoestratégico desses locais. Fernando de Noronha é apontada como uma posição privilegiada no Atlântico Sul equatorial, com potencial para vigilância oceânica de longo alcance, monitoramento de rotas marítimas e aéreas e coleta de informações estratégicas entre a América do Sul, a África Ocidental e o Atlântico médio.
O Poder – Onde Natal entra nisso?
Natanael – minha Natal tem sua base aérea historicamente conhecida como o “Trampolim da Vitória”, na Segunda Guerra. Mantém hoje, mais que nunca, relevância logística consolidada. A instalação dispõe de pista capaz de receber aeronaves estratégicas e operar como ponto de trânsito transcontinental, reabastecimento em voo, evacuação médica e mobilização rápida de forças. Analistas de defesa ouvidos pelo ‘DefesaNet’ avaliam que a combinação dessas duas estruturas permitiria aos EUA ampliar significativamente sua capacidade integrada de vigilância, coleta de informações, comando e resposta militar no Atlântico Sul, região que vem registrando maior presença de potências extrarregionais, como China e Rússia.

O Poder – E o Recife?
Natanael – Durante a Segunda Guerra Mundial, o Recife foi um ponto estratégico crucial no Atlântico Sul, servindo como base para forças aliadas, especialmente americanas, que operavam a partir do Ibura Field, nas imediações do atual Aeroporto dos Guararapes. O Recife foi usado para patrulha naval e apoio aéreo. A presença massiva de militares americanos transformou a cidade, gerando uma intensa interação cultural. Para se ter uma dimensão desse processo, basta consultar o clássico do mestre Rostand Paraíso ‘ O Recife na Segunda Guerra Mundial’, edições da Bagaço. Ou o ‘Boletim Sentimental da Guerra no Recife’ do nosso grande poeta Mauro Mota. “Meninas, tristes meninas/de mão em mão hoje andais/ Sois autênticas heroínas/da guerra sem ter rivais…” Uma preciosidade.

O Poder – Bonito. E de memória, muito bom. Voltando ao realismo pouco mágico de hoje, existe uma doutrina que podemos chamar ‘Trumpismo’?
Natanael – A fundamentação apresentada por setores ligados ao que seria o ‘trumpismo’ mistura referências históricas da cooperação militar hemisférica, doutrinas geopolíticas como a Doutrina Monroe e dispositivos legais internos dos EUA, a exemplo da Lend-Lease Act e de legislações de defesa mais recentes. Não há base jurídica explícita no direito internacional nem na legislação brasileira que sustente qualquer uso irrestrito dessas instalações sem acordos formais com o Estado brasileiro, o que torna o tema sensível do ponto de vista diplomático, estratégico e da soberania nacional. E mais: não envolve apenas o Executivo, tal operação exigiria também a aprovação do Congresso. Segundo o próprio O Poder apurou, com nossa modesta participação e também de outros articulistas (tisos). Até onde sei, a questão ajuda a explicar a súbita “química” que rolou entre Trump e Lula (risos).
Fonte: Jornal O Poder.




