
A notícia da revogação, por Leão XIV, do rescrito de Francisco que retirava subsídios habitacionais de cardeais e altos oficiais da Cúria deve ser lida com atenção redobrada pelo que revela sobre a transição de clima e de linguagem no coração do governo da Igreja.
O rescrito de 2023 nasceu sob o signo da retórica do pontificado de Francisco. Sacrifício excepcional, Igreja pobre, solidariedade com os necessitados, ajuste de contas com privilégios históricos. A decisão de cortar subsídios e impor aluguel de mercado foi apresentada como um gesto moralmente edificante, quase pedagógico. A medida atingiu um grupo restrito e o fez sem transparência comunicativa afixada num pátio interno do Vaticano como um aviso administrativo. O gesto tinha algo de “exemplarizante”, quase punitivo, lido internamente como populista.
Atingiu de modo peculiar cardeais recém-nomeados para cargos de grande responsabilidade. O mesmo valeria, em tese, para o Cardeal “Tucho” Fernández, embora neste caso específico haja indícios claros de tratamento diferenciado, como o próprio deixou transparecer com candura em suas redes sociais.
A austeridade, quando não é universal e previsível, deixa de ser virtude e passa a ser instrumento de poder.
A revogação não veio acompanhada de discursos inflamados, nem de manifestos ideológicos.
O papado não é um gesto performático de simplicidade individual, mas uma instituição que exige estabilidade, clareza e continuidade.
O Evangelho pede conversão do coração, não espetáculos de austeridade seletiva.
O que está em jogo é a restauração de um princípio básico de governo eclesial. A autoridade não se afirma por constrangimento público nem por sacrifícios impostos de modo assimétrico. Ela se sustenta pela justiça, pela previsibilidade e pelo reconhecimento da dignidade de quem serve.
Roma observa. A Cúria respira. E o mundo católico, cansado de gestos simbólicos que dividem mais do que edificam, começa a perceber que, às vezes, governar bem é justamente retirar um cartaz do muro e devolver à normalidade aquilo que nunca deveria ter sido transformado em espetáculo.
Fonte: Via @gaudiumpress_pt.




