
Como tudo na vida tem que haver coerência, em matéria de fé não seria diferente, entre o que se prega e o que se vive. Como se vê, o nome adotado pelo novo Papa (Leão XIV) ainda gera comentários sobre o que teria na verdade inspirado o sucessor do Apóstolo Pedro a chamar-se LEÃO. Para alguns teria sido uma homenagem ao inovador Papa Leão XIII, enquanto para outros, pode ter sido uma alusão à amizade que o franciscano Frei Leão (amigo próximo de São Francisco de Assis) nutria pelo santo ou ainda para lembrar a amizade estreita do novo pontífice com o recém-falecido Papa Francisco.
Muitas já são as especulações em torno de Leão XIV – se manterá ou não a controvertida linha reformista de Francisco, apesar de ter o novo chefe da Igreja sinalizado que assim o fará, ao menos em parte -, mas aos chamados católicos praticantes um dos questionamentos mais recorrentes estão voltados para o fato de se serão ou não mantidas as “novidades” engendradas no papado de Francisco, tais como bênção de casais do mesmo sexo, ordenação de mulheres ao sacerdócio, ecumenismo enfraquecedor do catolicismo e outras pautas.
Há questões importantes implementadas no Concílio Vaticano II, como por exemplo no campo da liturgia. Importante, porque a língua oficial do País (Vaticano) é o latim, mas numa incoerência inexplicável, a Igreja aboliu e até proíbe celebrações eucarísticas, em Latim. Era de se esperar que, se houve a vantagem de ouvir-se missas na própria língua, apesar disso não há o que justifique tal proibição, para quem quisesse optar pelo rito, na referida língua oficial da Igreja. Na prática, a própria Igreja está dizendo que não mais tem uma língua oficial. Isso é óbvio!
Quem estuda ou pelo menos acompanha minimamente a história recente da nossa Igreja, sabe que, com o advento do tão propalado Concílio Ecumênico Vaticano II, ocorrido na década de 1960, a situação tem se agravado significativamente e a eleição de Leão suscita esperança de que a Igreja volte a olhar em duas direções: para as questões temporais e para as realidades sobrenaturais. Afinal, a missão precípua da Igreja é a salvação das almas, à luz do que preconizam o Evangelho, o Magistério (ensinamento milenar da Igreja) e a Tradição, repassada de geração em geração, desde os apóstolos até os tempos modernos.
Da época de conclusão do Concílio para cá, muita coisa aconteceu e até certas práticas nocivas tem ocorrido, em detrimento da chamada sã doutrina e até mesmo das Sagradas Escrituras. Gostaríamos de nomear como destaque, aqui, nessa reflexão, a Missa, cujo empobrecimento do ponto de vista litúrgico, tem se dado progressivamente.
Na atmosfera de quem é ou não é “progressista” ou “conservador”, é inevitável ver-se pela internet abordagens acerca de matérias sobre ritos e rituais praticados pela Igreja e a Missa é um dos temas mais recorrentes, por motivos óbvios. Aqui reside talvez a prática da incoerência mais evidente e a figura do famoso cardeal africano Robert Sarah é sempre citada, quando se debate essas questões. A propósito, esteve ele entre os papáveis, no conclave de quinta-feira última.
Sarah é um dos mais ardorosos defensores da observância dos valores preconizados pela Igreja, nos seus mais de dois mil anos de história. Infelizmente, o secularismo entrou com força no seio da Cúria Romana, se espalhando pelo mundo, pós Concílio. Via de consequência, a liturgia ficou empobrecida. Ao contrário de antes, hoje em dia é na Missa que ocorrem aplausos de aniversários, sorteios de brindes, homenagem a pessoas de destaque, avisos de tudo o que ocorre na grande maioria das paróquias, isso sem falar nas extravagâncias praticadas, como cultos a entidades de matriz duvidosa, contrárias à fé católica.
Mas não fica por aí. Entre nós, há baixíssimo índice de confissões, reflexo da ideia de que já não se comete pecado com a frequência de tempos passados. A postura sensual e irreverente de pessoas nas celebrações eucarísticas é algo surreal, se comparado a décadas passadas. O barulho é ensurdecedor, antes, durante e depois das celebrações eucarísticas. Mas isso é só a “ponta do iciberg do que ocorre. Há outras situações muito graves, que mal daria para citar, aqui. E não se pense que estejamos “lavando roupa suja em casa”. Muito ao contrário. Estamos é fazendo o “mea culpa” do que não não condiz com nossa fé católica.
Nessa perspectiva temática sobre incoerência, temos que, quando a Igreja prega que a Eucaristia é o próprio Cristo (em corpo, sangue, alma e divindade) e que toda Missa é a renovação da morte e ressurreição de Jesus Cristo, então porque não se faz jus ao que se prega? Não há dúvida que, assiste razão ao Cardeal Robert Sarah, em tecer críticas aos que pregam uma verdade mas na prática, fazem cara de paisagem; não fazem o dever de casa. Isso só faz aumentar a tese dos que atestam sermos hoje uma igreja mais ritualística e de práticas alheias aos fundamentos evangélicos, do que apostólica. Isso, com as devidas e honrosas exceções.
É claro que, ainda há considerável parcela de padres, bispos e cardeais fiéis ao Evangelho, ao magistério e, à tradição milenar da Igreja. Mas o número desses é cada vez menor. Não por menos que a chegada do novo Papa reacende a esperança de um novo alvorecer, para desgosto dos que já davam como certo, um pontífice voltado apenas para questões climáticas, sociais e geopolíticas, por exemplo.
Que possa ter o novo Sumo Pontífice, um olhar para os que sofrem ao redor do mundo, além das questões globais, entre as nações, pois a Terra sofre dores de parto e, à essas alturas, nesse estágio de confusão e ateísmo desenfreado em que vivemos, só Deus poderá nos ajudar a sermos coerentes com o que pregamos. Que o ideal agostiniano de buscar a verdade, visando o esplendor de Jesus Cristo, norteie o governo de Leão XIV. Assim seja!
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