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Morte de Gladstone Vieira Belo consterna o jornalismo pernambucano. Era a última personificação do Diario de Pernambuco

Foi por volta de 1973 que, em minha tenra idade, pela primeiríssima vez deparei-me com um jornal impresso que exalava um cheiro característico e peculiar, como se sabe (foi amor à primeira vista), levado do Recife para a pequena Luzilândia, interior do Piauí, pelo saudoso e até hoje pranteado Padre Jonas Pinto, vigário da Paróquia de Santa Luzia, encravada às margens do ainda caudaloso Rio Parnaíba.

Passou-se pouco tempo e eis que de repente (três anos depois) e por “conspiração” do destino, em 1975, já na Veneza Brasileira estávamos envoltos num quase êxtase. Sim, porque estava realizando um sonho de menino pobre, lá do interior de São Bernardo-MA, separado de Luzilândia apenas pelo aludido rio.

Meu sonho era de um dia conhecer o DP e quem sabe, lá trabalhar. Ali estava eu a olhar para a sacada do histórico prédio da Pracinha, palco de memoráveis fatos marcantes da história de Pernambuco e do Brasil. Não foi fácil acreditar que eu estava mesmo diante do Diario de Pernambuco.

Pois bem. O tempo foi passando e com ele as dificuldades, que não eram pequenas, até que em 1977 conseguimos através da minha “protetora” Irmã Maria Pinto – freira irmã de Padre Jonas, cuja Congregação de Santa Catarina de Sena, fica na Praça Chora Menino, bairro da Boa Vista, uma colocação na Faculdade de Odontologia de Pernambuco – FOP, cujo chefão era o Prof. Edrízio Pinto, amigo dela e homem de coração bom que, de plano me admitiu na biblioteca da FOP.

Só que, um belo dia, já em 1978, o Prof. Edrízio me chama ao seu gabinete para dizer que “estou aqui sem saber o que fazer com você, aqui, na Faculdade”. Perguntado sobre as razões, ele emendou: “A professora doutora Eneida (nome fictício) veio à mim queixar-se de você. Disse que você foi desrespeitoso, já que dirigiu-se à mesma, chamando-a de senhora Eneida, ao invés de doutora professora Eneida.

Obviamente que fiquei sem chão, mas, como numa espécie de raio de luz, me veio a ideia e perguntei: o senhor não poderia me dá umas cartas de apresentação, para amigos seus? Edrízio puxou da escrivaninha um bloco de papel e ali mesmo rascunhou dois bilhetes, dirigidos o primeiro, ao então presidente da Febem, Homero Jucá. Naquela época entrava-se sem concurso público.

O segundo bilhete, dirigido ao seu também amigo e todo poderoso jornalista Antônio Camelo. Mas disse que, caso não o encontrasse, poderia entregar também a outro jornalista importante, na Empresa. Nome dele: Gladstone Vieira Belo, então superintendente do Jornal, tendo depois chegado ao posto de vice-presidente dos Diários Associados, órgão de expressão nacional, conglomerado de jornais, em todo o Brasil.

Resumindo a história Passei no teste, lá na Febem, mas meu foco era mesmo o Diario de Pernambuco. Aqui, fui submetido a um rigoroso teste de datilografia. Se teclasse 47 toques, estaria empregado. Cravei 417 (isso mesmo, 417 toques), numa pequena máquina Remington para espanto de todos, lá. Lá permaneci de 1978 a 1986 (de lá saí para ser advogado), quando tive a chance de conhecer uma das últimas gerações de grandes jornalistas. Devo minha formação intelectual e humanística, ao velho e eternamente querido DP.

Era bonito ver Gladstone impecavelmente trajando seu preferido terno escuro e gravata condizente. De semblante quase carrancudo e de poucas palavras, era dono de um perfil típico dos verdadeiros executivos. Já Dr Camelo (ser humano incrível) costumava trajar ternos claros, a exemplo de Nereu. Era um período ainda áureo, do jornalismo pernambucano.

Quem, daquela época, não lembra de um Joezil Barros e de Lúcio Costa, Zenaide Barboza, Selênio Homem, Eliomar Teixeira e Robson Sampaio? Como não lembrar de Zé Maria, chefe da diagramação? Como esquecer do carrancudo Mário Shakespeare (que gostava de mim como nenhum outro)? Quem não lembra dos Valdimir e Ronildo Maia Leite? Isso apenas para citar alguns. O ainda operoso colunista João Alberto (recém saído do Diario) que o diga!

Agora, imaginem o que esses monstros do jornalismo pernambucano (grande parte já falecida) não diriam, hoje, diante do desaparecimento de Gladstone Vieira Belo!

Não há dúvida de que, com o desaparecimento de Gladstone, encerra-se um ciclo marcante do jornalismo, na seara do empreendedorismo da imprensa, em Pernambuco. Indiscutível que o espírito empreendedor dele por certo inspirará as novas gerações, especialmente no campo da isenção e imparcialidade, hoje coisa tão cara e tão rara, no jornalismo brasileiro.

Vá em paz, Gladstone e que Nosso Bom Deus o tenha, por ocasião desta Páscoa que, agora mais do que nunca, é também vossa!

2 thoughts on “Morte de Gladstone Vieira Belo consterna o jornalismo pernambucano. Era a última personificação do Diario de Pernambuco

  • Fatima Cristovão

    Parabéns Luis, papai também abrilhantou as páginas do Diário de Pernambuco com sua crônicas sobre a beleza do sertão pernambucano.

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